A Água em três Momentos de Pablo Picasso

 

Alexandre Camanho de Assis

 

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A obra de Pablo Picasso (1881-1973) é a perfeita expressão pictórica deste Século XX frenético, incompreensível, aterrorizante, caótico, hedonista e sensual. Nas suas diferentes fases, o mestre malaguenho registrou a água – quase sempre o mar –, impondo-lhe sempre as nuances do momento criativo (ou pessoal) por que passava.

 

Em A Tragédia (1903), as figuras tristes denunciam a característica da chamada Fase Azul (1901-1904), ainda pré-cubista: tristeza. Picasso vivia em Paris, com seu amigo Max Jacob – por ver ali a chance dos artistas –, e o cotidiano era de fome e desesperança. Picasso está no início de sua trajetória artística.

 

Os magros adultos estão numa atitude fechada, braços cruzados, olhar cabisbaixo; mas o menino tem um pathos diferente. Ao contrário dos outros, ele começa a levantar o olhar. Sua mão direita, racional, empurra o adulto – como se rejeitasse sua atitude –, enquanto a esquerda, emocional, é pedinte, francamente esperando algo. Atrás, o mar (Picasso já o avistara, então, em Málaga, Barcelona e A Coruña), aqui o grande inconsciente, o repositório da experiência vivida e não-vivida, talvez querida.

 

 

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Logo em seguida, porém, ele vê a vida em rosa. Nova fase, melhor: reconhecimento, consagração. A Primeira Grande Guerra terminara; sucedem-se as muitas mulheres, o entusiástico matrimônio, o primogênito em 1921; no ano seguinte, Picasso executa Mulheres Correndo na Praia (1922).

 

Ei-las, duas, correndo, vestidos e cabelos ao vento (o mesmo artifício que os renascentistas usavam para expressar o movimento que evidencia mudanças de atitudes, de comportamento, de consciência); as duas seguem adiante, olhando para o alto, braços abertos, a mão estendida para a frente: tudo é futuro, tudo é esperança. Céu azul com nuvens carneiras, mar tranquilo, e o Sol projeta-se em seus corpos, sombreando a areia (o chão agora já parece firme): há luz no caminho.

 

 

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Tudo era diferente, no entanto, nos anos 30. Década de matrimônio desfeito, nova filha de outra mulher. O cubismo entra em ação; as figuras – mas também a vida e o mundo – começam a se decompor. O mestre pinta seus minotauros feridos, agonizantes (1933), touradas (1934), figuras amorfas, sem enquadramento. A realidade embrutecia-se, perdia a beleza essencial, o sentido. Em 1936, eclode a Guerra Civil Espanhola; no ano seguinte, as forças alemãs bombardeiam a cidade basca de Guernica.

 

Semanas mais tarde, Picasso inicia a pintura do gigantesco mural-denúncia, homônimo à cidade. quando o mestre concebeu Menina Lendo um Livro na Praia (1937), tal era a ordem das coisas; a figura desconstruída e enigmática está imersa na leitura, como que forçada à reflexão – urgia, afinal, que o mundo avaliasse o auto-imposto vendaval de absurdo e treva que lhe reduzia, a cada dia, à crescente destruição. Um mar estático está às suas costas, estagnado, imprestável; o conhecimento humano não merecia crédito, por ter levado a vida até ali. Outra Grande Guerra já chutava a porta da Europa...

 

Após ter associado indelevelmente seu nome ao Século que lhe serviu de espelho, Pablo Picasso morreu em 1973 na cidade francesa de Mougins, na Côte d'Azur, de onde invariavelmente se divisa o mar que tantas vezes lhe inspirou.

 

 

 

 

 

 

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