Carta a Hugo de Payns, mestre do Templo

Guigo, Prior da Grande Cartuxa¹

 

Texto traduzido por Alexandre Camanho de Assis

 

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[Data: logo após o retorno de Hugo da Europa à Terra Santa, em 1129]

 

1. Aos nossos mais queridos e venerados senhores e amigos em Cristo, Hugo prior da Santa Cavalaria, e todos que são regidos por seu conselho; seus servos e amigos, os irmãos de Cartuxa, desejam-lhe uma vitória completa, espiritual e física, sobre os inimigos da religião cristã e a paz através de Cristo Nosso Senhor.

 

2. Já que não pudemos ter uma conversa mais agradável que sua presença nos proporcionaria, em sua viagem à França ou quando de seu retorno, pareceu-nos que poderíamos, ao menos, falar-lhe um pouco por carta. Não temos idéia de como encorajá-lo, caro amigo, em batalhas e em combates físicos, mas desejamos, ao menos, aconselhá-lo nas batalhas espirituais, com as quais nos preocupamos diariamente, embora tampouco estejamos melhor preparados a incentivá-lo a este tipo de batalha. Por outro lado, estaremos desperdiçando nosso tempo atacando inimigos exteriores se não subrepujarmos nossos inimigos internos; e é vergonhoso e indigno desejar subjugar as forças de outros povos ao nosso poder, se não subjugarmos primeiramente nossos próprios corpos. Quem tolerará nosso desejo de estender nosso domínio sobre terras extensas, enquanto sofrermos a servidão desonrosa aos vícios em um pequeno pedaço de relva, isto é, nossos próprios corpos ? Conseqüentemente, meus queridos amigos, vamos primeiramente adquirir controle sobre nós mesmos, a fim de que possamos atacar nossos inimigos externos em segurança; vamos purgar o vício de nossas mentes, para então podermos purgar as terras dos bárbaros.

3. "Assim sendo, não permitamos mais que o pecado governe nossos corpos mortais, fazendo-nos obedecer a seus desejos, nem cedamos as partes de nossos corpos ao pecado como instrumentos do mal, mas rendamo-nos a Deus, como aqueles que foram trazidos da morte à vida, e rendamos as partes de nossos corpos a Deus como instrumentos de justiça " [Romanos 6:12-13]. E, se o corpo desejar permanecer indomável contra o espírito, que o espírito deseje permanecer invencível contra o corpo; "Porque estes dois," diz o apóstolo [Paulo], " são opostos um ao outro, para impedir que você faça o que faria" [Gálatas 5:17]. Gostaríamos, se fosse possível, de estar completamente livres dos desejos corporais; mas, embora nesta vida, que é composta de várias tentações, não seja possível ser completamente livre, ainda é possível não sermos escravos do desejo. Entretanto, já que nossa força não é suficiente para isto, confortemo-nos no Senhor e no poder de Sua força, pondo a armadura de Deus, a fim de que sejamos capazes de resistir às artimanhas do diabo [Efésios 6:11]. "Nossa batalha não é contra os inimigos humanos," esta passagem continua, "mas contra principados e potências, contra os que regem esta treva atual, contra as forças espirituais do mal nos céus" [Efésios 6:12], isto é, contra os vícios e os espíritos malignos que os instigam. Porque – como pede David –, se eles não estivessem nos dominando, então seríamos sem mancha e purificados das maiores falhas.

 

4. Assim, mantenhamo-nos firmes, cingindo nossa cintura com a verdade e calçando nossos pés com o evangelho da paz, em tudo levantando o escudo da fé, com o qual poderemos extinguir todos os dardos flamejantes do mal; em nossas cabeças o elmo da salvação, e com nossa mão direita apoiada pela espada do espírito [Efésios 6:13-17]. Corramos, mas não erraticamente; lutemos, mas não como se golpeássemos o ar; mas açoitemos nossos corpos, sujeitando-os à servidão, porque o mais desejado estado para um ser humano – que é o animal feito à imagem de Deus – é quando seu corpo serve ao espírito, e o seu espírito é sujeito a seu Criador.

 

5. Nesta batalha, mais resistente alguém será, mais triunfos gloriosos terá e numerosos inimigos derrubará – sob a direção e a proteção de Deus – quanto mais esforçar-se em ser humilde em tudo. Quanto mais alguém desejar ser orgulhoso, mais fraco tornar-se-á e menos capaz será de fazer qualquer coisa. "Deus repele o orgulhoso" [Tiago 4:6]. Portanto, não há necessidade alguma de procurar um combatente de algum outro lugar para derrotá-los, porque o guerreiro Deus todo-poderoso os repelirá. Davi disse: "o Senhor protege os pequenos", e, tendo vivido isto ele mesmo, acrescentou: "eu fui trazido de muito baixo, e Ele me libertou" [Salmos 116:6 ]. Usemos este exemplo, se almejamos usar remédio similar. Façamos o que ele fez, se desejamos o que ele recebeu. Rebaixemo-nos ao ponto mais baixo, para que sejamos libertados de todo mal.

 

6. Mais uma vez, o apóstolo [Paulo] falou do Senhor Jesus Cristo: "humilhou-se, fazendo-se obediente mesmo até a morte, a morte na cruz”. E isso não foi em vão. Ele continua: "Por esta razão Deus o elevou às alturas, e deu-lhe um nome que está acima de qualquer outro nome, que ao nome de Jesus dobram-se todos os joelhos, no Céu, na Terra e nos infernos; e todas as línguas proclamam que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai" [ Filipenses 2:8-11 ]. Disso podemos também tirar um exemplo muito significativo, se desejamos ardentemente ganhar o prêmio. Façamos o que Ele fez, para que possamos seguir para onde Ele foi. Sigamos a estrada da grande humildade, para que possamos alcançar a glória de Deus Pai. "Os que se exaltarem a si mesmo serão rebaixados, e quem se rebaixar será exaltado" [Lucas 14:11], como o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo deu testemunho, Deus que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo pelo século dos séculos. Amém.

 

7. Que a misericórdia toda poderosa de Deus faça-os sempre lutar afortunadamente e triunfar gloriosamente nas batalhas espirituais e físicas. Caríssimos e mais eminentes e mais renomados irmãos, nós lhes desejamos boa saúde, e que se lembrem de nós nos lugares sagrados que vocês guardam, nas suas orações. Nós estamos enviando esta carta por dois mensageiros diferentes, de modo que nenhum obstáculo -- Deus proíba – impeça que os alcance, e nós pedimos que vocês a leiam a todos os irmãos.

 

 

1 Guigo (Guigues, 1083-1136) foi o quinto Prior da ordem da Grande Cartuxa, reconhecida pela sua austeridade. Por volta de seus 23 anos ingressou no eremitério de Chartreuse (Dauphiné); apenas três anos depois, seus confrades pediram que fosse seu prior, encargo que desempenhou por 27 anos, até sua morte. Guigo redigiu as primeiras regras dos cartuxos, os “Coutumes de Chartreuse”.

 

 

 

 

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