NAUMAQUIAS

 

Alexandre Camanho de Assis

 

Versão em PDF

 

Imagem aleatória

“Naumaquia”, de Ulpiano Checa (1860-1916)

 

No Império Romano, além das conhecidas lutas de gladiadores, matanças de feras e corridas de bigas, realizavam-se naumaquias (em latim naumachia, ou “navalia proelia”, a partir do grego antigo ναυμαχία/naumakhía: literalmente, “combate naval”), para diversão do povo, inauguração de templos, louvor a deuses como Netuno ou comemoração dos triunfos militares e
conquistas territoriais. As naumaquias eram combates simulados entre prisioneiros de guerra, que lutavam até a morte para divertir o público.

 

Estes combates se realizavam em lagos naturais ou artificiais, ou ainda – incrivelmente – nos anfiteatros romanos. Donde, designavam-se naumaquias igualmente os lugares em que tais enfrentamentos aconteciam. Das margens ou na platéia, as autoridades e o povo assistiam a centenas ou milhares de contendores, os naumachiarii (criminosos condenados à morte ou prisioneiros de guerra), saudarem o Imperador de dentro de embarcações a remo ou vela; após o “morituri te salutant”, eles se confrontavam como duas equipes adversárias – muitas vezes reproduzindo notáveis combates navais antigos1 –, até que uma delas fosse completamente trucidada. Em regra, os sobreviventes eram brindados com a liberdade.

 

As naumaquias tiveram sua fase áurea entre 50 a. C. e 100 d.C.. Júlio César inaugurou este tipo de espetáculo em 46 a. C., quando ordenou a construção de um lago artificial no Campo de Marte, às margens do Tibre. Neste grande lago artificial teve lugar uma naumaquia com 4000 remadores e 2000 naumachiarii. Três anos depois, uma epidemia de malária, atribuída àquelas águas estagnadas, motivou literalmente o enterramento do lago. Em 2 a. C., para inaugurar o templo de Marte Ultor, Augusto ordenou a simulação da Batalha de Salamina (480 a. C., que opôs persas a gregos) num lago artificial de 540 metros de comprimento e 360 metros de largura; contenderam, então, 30000 naumachiarii e remadores espalhados em 30 embarcações.

 

Um grande lago para naumaquias foi feito, por ordem de Cláudio, entre 41 a 54 d. C.; a inauguração contou com um combate envolvendo 50 barcos em cada lado e 19000 naumachiarii e remadores2. Para aumentar o frenesi e a crueldade do espetáculo, a guarda pretoriana postou-se às margens do lago munida de balistas e catapultas, disparando contra as naus e seus tripulantes, turvando as águas de sangue.

 

 

Imagem aleatória

Naumaquia de Domiciano (85 a. C.)

 

Nero ofereceu naumaquias introduzindo uma expressiva novidade: eram realizadas em anfiteatros. Um combate naval destes ocorreu em 57 d. C. em um anfiteatro de madeira edificado no Campo de Marte3; outro ocorreu em 64 d. C., precedida de lutas com animais e seguida de combates de gladiadores, culminando num grande banquete4.

 

Seguramente já fazendo uso das técnicas inauguradas por Nero, Tito patrocinou, em 80 d. C., duas naumaquias, nas festividades de inauguração do Coliseu: uma no lago de Augusto e outra dentro do novo anfiteatro5, reproduzindo a batalha de Corinto e Corcira, que originou a Guerra do Peloponeso (Atenas e Esparta, 431 a 404 a. C.). Finalmente, Domiciano mandou que se realizasse uma naumaquia no Coliseu em 85 d. C., e outra quatro anos depois, num lago no Tibre decorrente das escavações que forneceram pedras àquela construção6.

 

 

Imagem aleatória

Reconstituição de uma naumaquia no Coliseu, segundo Kuhn (1913)

 

É evidente que as naumaquias realizadas em anfiteatros não podiam ter a mesma amplitude daquelas que tiveram lugar em lagos; tampouco havia condições reais de as naus manobrarem. Utilizavam-se, então, réplicas de barcos, que provavelmente sequer flutuavam, mas que tinham dispositivos que permitiam simular seu naufrágio7. Ainda hoje, o alagamento de
anfiteatros como o Coliseu intriga os arqueólogos; de qualquer maneira, o mais provável é que esses espaços fechados não disponibilizassem senão espelhos d’água, cujo escoamento e drenagem se fizessem sem demora.

 

Após um século e meio de prestígio, as naumaquias declinaram. Pelo Calendário de Fastos de Ostia, sabe-se da realização de um espetáculo destes por ordem de Trajano, já em 109 d. C.; graças a esforços arqueológicos no Século XVIII, localizaram-se restos de sua edificação numa planície do Vaticano, próximos ao Castel Sant’Angelo. Nas províncias romanas, a idéia de naumaquia disseminou-se, embora sem a hostilidade que a caracterizava. No anfiteatro de Mérida – inaugurado em 8 a. C. – realizaram-se naumaquias. Em Portugal, por exemplo, cidades pequenas como Marialva (com pouco mais de duzentas almas) gabam-se, mesmo hoje, de suas naumaquias – na verdade, reservatórios artificiais que abasteciam banhos públicos, ou tanques onde se praticam entretenimentos náuticos. Também são naumaquias as encenações de combates navais contra os turcos, em meio às celebrações espetaculares de cristãos contra mouros.

 

Mas o esplendor das naumaquias mobilizou por muito tempo, de forma nostálgica, corações e mentes: em 1550, o rei Henrique II da França mandou fazer uma em Rouen; Milão sediou uma naumaquia em 1807, em homenagem a Napoleão. No Século XVII realizaram-se naumaquias no lago do Retiro, em Madri; nos Séculos XVIII e XIX, vários lagos em parques ingleses foram palcos de simulações de combates navais com barcos em escala, denominados naumaquias; No Parc Monceau, em Paris, subsiste um lago rodeado de colunas coríntias, a que ocasionalmente alguém chama de naumaquia.

 

 

 

 

 

Imagem aleatória

Naumaquia de Milão (1807).

 

 

 

 

1 Por exemplo, em 27 a. C. Augusto simulou a Batalha de Salamina (480 a. C., entre persas e gregos. Em 79 a 81 d. C. o Imperador Tito ordenou a encenação da Batalha de Corinto e Corcira, que ocasionou a Guerra do Peloponeso (Atenas e Esparta, 431 a 404 a. C.).

2 Suetônio, em suas Vidas dos Doze Césares (Claudio, XXI, 1214), narra que foi justamente nesta ocasião que os naumachiarii saudaram o imperador usando pela primeira vez uma frase que, depois, já famosa, seria erroneamente atribuída aos gladiadores: Morituri te salutant.

3 A informação também é de Suetônio (Vidas..., Nero, XII, 2-6) e de Dião Cássio (Historia Romana, LVI, 9, 5).

4 É o que narra Dião Cássio na sua Historia Romana, LXII, 15, 1.

5 Mais uma vez, Dião Cássio (Historia Romana, LXVI, 25, 1-4).

6 Suetônio, Vidas..., Domiciano, IV, 6-7.

7 É o que atestam Tácito ( Anais, XIV, 6, 1) e Dião Cássio (Historia…, LXI, 12,2).18 Mateus 4, 19.

 

 

 

 

voltar