Jean Cocteau (1889-1963) é um dos nomes mais significativos da cultura francesa do Século XX. Artista de vanguarda, seu círculo de amizades incluía Picasso, Erik Satie e Marcel Proust; polêmico e eclético – dom próprio aos renascentistas –, destacou-se como poeta, escritor, ensaísta, pintor, cineasta, desenhista e outros ofícios, tendo sido eleito para a Académie Française em 1955.
Para Cocteau, todas estas artes não eram senão poesia, “religião sem esperança”. Poesia, para Cocteau, era “uma ética, que significa um secreto código de conduta”. Amava a beleza, “que age mesmo sobre aqueles que não a constatam”, e este atributo fundamental que é a invisibilidade:
“Todo mundo possui um invisível e um visível. Após a morte, o invisível faz sua revanche e torna o visível verdadeiro”1.
“A invisibilidade de uma disciplina não a impede de estar presente. A poesia é o inverso do que as pessoas estimam ser poético. A poesia é uma arma secreta. Uma arma perigosa, precisa, de tiro rápido e que algumas vezes não atinge seu alvo senão a distâncias consideráveis”2.
Além de desenhar cenários de óperas e peças teatrais, Cocteau decorou várias
capelas e igrejas, nelas registrando uma mística singular: como Leonardo da Vinci – por quem
Cocteau nutria um “amor fraternal” –, o poeta estampou uma consistente heterodoxia nas paredes
que pintou, valendo-se de imagens absolutamente insuspeitas: o invisível aos poucos tornou o
visível verdadeiro.
A Capela São Pedro, em Villefranche-sur-Mer, na Côte d’Azur (França), foi durante
muito tempo objeto da atenção de Cocteau, que sonhava restaurá-la desde a juventude: “uma jovem
beleza romana esperava, não o beijo de um príncipe, mas que um poeta amoroso decidisse lhe
render culto e orná-la para as festas de São Pedro”.
Em 1950, Cocteau era hóspede de uma amiga em Saint-Jean-Cap-Ferrat – cidade próxima de Villefranche – e apresentou ao responsável pelo turismo local, Albert Lorent, seu projeto de restauro e reforma da capelinha. Depois, escreveu: “durante sete anos Lorent lutou sem trégua e à minha revelia, para que a prefeitura e sua equipe conseguissem convencer os pescadores, proprietários da capela, a mudar suas redes de lugar e possuir um lugar de peregrinação”3.
Finalmente, a prefeitura liberou o local; “as chaves me foram repassadas por Albert Lorent, mais emocionado que se elas fossem as do próprio São Pedro”4. Com a permissão, Cocteau devotou-se durante muitos meses à obra, nela envolvendo os artesãos, ceramistas e pedreiros locais. A primeira missa teve lugar em 30 de junho de 1957 – um dia após a festa do patrono da capela.
Ultimada a reforma, repontou do trabalho uma estética única, em que elementos românicos tradicionais convivem com a homenagem que Cocteau prestou, simultaneamente, ao apóstolo Pedro, à cidadezinha cara à infância do poeta e a crenças típicas da França mediterrânea.
Encimando a porta, pelo lado de dentro, Cocteau estampou uma frase evocativa das palavras de São Pedro: “Entrai na estrutura deste edifício como se fossem pedras vivas”5. Não deixa de ser curioso que tais palavras só são verdadeiramente notadas quando o visitante sai do edifício, voltando para o “mundo exterior”. Qual o edifício que Cocteau exorta a entrar e a se integrar, então?
De cada lado da porta, figuram os “castiçais do Apocalipse”, como o próprio poeta descreveu:
“à direita e à esquerda, separando esta porta das clarabóias ogivais com vitrais amarelo-ouro, desenham-se, incrustrados nas irisações da parede, os dois castiçais do Apocalipse, dos quais se poderia dizer, parafraseando o Apóstolo: ‘E os castiçais tinham um rosto humano. E os castiçais tinham nariz e boca. E os castiçais tinham um olho. E este olho via o Cordeiro’.”6.
O Apocalipse conta, de fato, com cinco menções a castiçais (ou candelabros)7. Nenhuma, no entanto, se parece com o texto “parafraseado” de Cocteau. Talvez o poeta tenha querido escrever sua própria versão daquele livro; afinal, quando jovem, Cocteau teria manifestado a um amigo – o abade Mugnier – seu desagrado estético em relação àquele:
“Cocteau não gosta do Apocalipse, que chama irreverentemente de ‘uma gafe de Deus’. É livro de um poeta ruim”8.
E no entanto, ao apresentar sua capela, Cocteau revisita o Apocalipse. É curioso que o poeta declare expressamente que “os olhos dos castiçais estão orientados na direção do altar”, mas o altar tenha castiçais idênticos que criam, mais uma vez, um efeito reflexivo; é como se ao final, num jogo de espelhos9, o olhar terminasse no próprio visitante da capela. Intrigante, do mesmo modo, que castiçais idênticos tenham sido pintados na fachada da capela; qual dos três jogos de candelabros, no labirinto especular do Código Cocteau, vê o Cordeiro?
Mais que isso, por trás do altar, na abside, está retratada a cena principal da capela: o momento em que o apóstolo Pedro, instado por Jesus, caminha sobre as águas1. Descreve-a Cocteau:
“A abside mostra São Pedro caminhando sobre as águas. Sustentado, sem que o saiba, por um anjo, seu rosto demonstra algum temor. O Cristo, ternamente, se diverte com esse temor. Pescadores e peixes se admiram com o milagre”11.
Entretanto, o ponto de fuga não leva, na altura do crucifixo, ao Cristo, nem a São Pedro, mas a uma figura humana, um pescador. Cocteau parece ter querido fazer uma ilusão de ótica, à semelhança dos falsos relevos que são comuns em toda a Riviera; focado em um primeiro momento no crucifixo – o “Cordeiro” –, a vista logo em seguida vai se fixar no homem anônimo, comum, pescador, da pintura mural. Villefranche era uma comunidade de pescadores; estaria o poeta atribuindo a pessoas comuns a encarnação da divindade? A divindade estaria nas pessoas comuns?
A cidadela fortificada de Villefranche-sur-Mer coroa a pintura, como se o evento tivesse lugar ali mesmo. Cocteau acrescenta que “todas as cenas observam a regra primitiva da pintura sacra, situando-se no ambiente de Villefranche: seus cais, suas escadas, sua cidadela”. Com efeito, os mestres de todos os tempos agregaram elementos próprios dos costumes locais em cenas sacras, como forma de superar as distâncias espaciais e temporais e imprimir, nelas, contemporaneidade: fizeram-no, por exemplo, Botticelli12, Caravaggio13, Rafael14, Jan van Eick15, Salvador Dali16 e muitos outros.
Cocteau acrescentou outros elementos locais, de forma que as cenas bíblicas parecem ter tido lugar em Villefranche-sur-Mer. Primeiro, uma feliz associação: anjos estão presentes em todos os afrescos da capela, homenageando assim a Baía dos Anjos, em frente a Nice, capital da Riviera Francesa. Composições decorativas evocando conchas e redes de pesca também estão por todos os lados, bem como o Sol Invencível da Riviera, imprimindo em favor dos pecadores – “proprietários da capela” – familiaridade a seu “lugar de peregrinação”. Figuras antropomórficas se confundem com as linhas das redes, “que devem dar a impressão de que o visitante se acha preso nelas”17: alusão aos “pescadores de homens” de que fala o Evangelho18...
Os elementos locais: redes, conchas, anjos e as mulheres de Villefranche-sur-Mer
No primeiro painel da esquerda, estes elementos locais se concentram. Além das já referidas figuras associadas à região, Cocteau registra que se trata de “uma homenagem às jovens de Villefranche, enfeitadas em suas modas próprias, antes que a grande onda de despersonalização viesse varrer o charme da língua e dos costumes”19.
Dois painéis estão diretamente ligados à figura de São Pedro. Um deles, segundo Cocteau, mostra o “anjo libertando São Pedro adormecido das prisões do rei Herodes”20; no outro, “os soldados de Pilatos detêm São Pedro após a negação. A criada vai partir. Ela o entrega aos guardas, que o prendem. Ele chora. O galo canta”21.
Trata-se de conhecidas passagens dos Evangelhos. A cena das três negações, da criada e do galo está em Marcos, 14. Aqui, há um não-dito: é justamente em Marcos, 14 que ocorre a cena da mulher com o jarro de alabastro22 – aquela que derrama na cabeça de Jesus o melhor bálsamo, em Betânia. Cocteau fala de uma criada que vai partir, mas essa passagem não se sustenta nos Evangelhos; no entanto, uma mulher carregando um jarro olha de forma triunfal, e algo prazerosa, a prisão de Pedro; uma figura igual se evade, à direita.
Será coincidência? Desde a Idade Média, associou-se a “mulher do vaso de alabastro” a Madalena, em cujo favor prosperou uma incalculável iconografia com tal atributo23. E mais: a rivalidade entre Pedro e Madalena no círculo de Jesus sempre esteve presente nos Evangelhos apócrifos24, e ficou mais uma vez evidente nos textos encontrados em Nag Hammadi, no Egito, em 1945. A “criada” da pintura de Cocteau seria a mulher do vaso de alabastro? Estaria ela expressando, na pintura, alguma satisfação com a detenção de seu rival Pedro?
É possível que sim, se a esta hipótese se acrescerem outras duas informações. Entusiasta dos espelhos e das imagens invertidas, Cocteau pintou, naquela cena, uma mulher que faz o número três com a mão, quantificando as negações de São Pedro26. Mas o três é um “M” invertido, sintomaticamente formando ângulos com as duas mulheres que representariam a Madalena. Malgrado isto possa parecer remoto, é preciso lembrar que o artista pintou outros “M”, como na cena da crucifixão na capela Notre-Dame de France, em Londres27.
Se isso não for o suficiente para indiciar o propósito de Cocteau, há um outro mural, à direita, que o pintor descreveu como sendo “uma homenagem aos ciganos de Saintes-Maries-de-la-Mer. Ali se vê um violonista acompanhar a dança de uma menina, enquanto um pescador recompõe sua rede. Acima da carroça, um anjo desfralda um estandarte e a Virgem aparece com o menino Jesus nos braços28”.
A cidade de Saintes-Maries-de-la-Mer, na Camargue, é um alto-lugar de peregrinação dos ciganos, que, nos dias 24 e 25 de maio, rendem homenagem à sua santa protetora, Sara a Negra29. Sua estátua, levada então em cortejo, é guardada na cripta da Igreja fortificada das Santas Marias do Mar: a tradição conta que as três santas – Maria Salomé, Maria Jacobé e Maria Madalena – teriam, após a crucifixão, embarcado com um diminuto grupo num pequeno barco30 e, Mediterrâneo adiante, chegado às costas da Provença, exatamente na cidade de Saintes-Maries.
A estória é cambiante; com algumas variações, estabeleceu-se que Maria Jacobé e Maria Salomé31, Lázaro, Marta, José de Arimatéia, Maximiano (legendário primeiro bispo da Provença e seguidor de Jesus), a Madalena e uma serva negra, chamada Sara – também evocada como Sara a Egípcia –, desembarcaram neste idílico estuário mediterrâneo do Ródano32 e aí se dividiram. De acordo com a lenda local, Madalena teria se estabelecido em uma caverna na localidade de La Sainte-Baume33 (“O Santo Bálsamo”), de onde, reclusa, pregou a palavra de Jesus.
Curioso, portanto, que o lugar, e seu entorno, tenha sido palco de culto a Ísis, Diana, Madalena, Sara e outras, mas não da Virgem, como escreveu Cocteau. No início, já desde sua construção34, chamava-se de Igreja de Nossa Senhora do Mar (Église de Notre-Dame-de-la-Mer), mas a Grande Dame que chegou pelo mar foi a Madalena35, e a Nossa Senhora dos Ciganos era Sara...
Uma ainda mais surpreendente lenda narra que a Madalena, ao partir da Palestina, teria dado à luz uma menina em Alexandria, no Egito, à qual teria dado o nome de Sara (que significa “princesa”, em hebraico). O nome-epíteto da criança cobra sentido ainda maior se se crê na Legenda Aurea, famosa hagiografia escrita por Jacobus de Voragine, arcebispo de Gênova no Século XIII: segundo ele, Madalena era de origem nobre, “na verdade, da realeza”. Donde, sua filha ser uma princesa – Sara.
Com tais informações à mente, é de se perguntar quem é a Nossa Senhora, com uma criança sintomaticamente assexuada nos braços, que Cocteau estampou no painel “Homenagem aos ciganos de Saintes-Maries-de-la-Mer”.
A Madalena tornará a outros trabalhos de Cocteau; aqui, a serem corretas estas conjeturas, o artista imortalizou o triunfo da Madalena e a entronizou justamente num lugar de veneração de seu suposto desafeto: São Pedro. A capela Saint-Pierre, se realmente se prestou a tal ironia – genial ironia –, é mais um entre os inúmeros locais ao longo do Mediterrâneo onde a Madalena é venerada, e uma eloqüente obra-prima deste grande mestre, obra “quase anônima e simples como uma estrela-do-mar jacente entre os barcos”36... re dN
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