A Ordem do Templo (1119-1312) angariou justa reputação por sua bravura militar e seu zelo religioso, além de um bom punhado de aspectos controvertidos que persistem até os dias atuais. Excelentes soldados que combatiam até o martírio, possuidores orgulhosos de seus próprios bens (malgrado o voto de pobreza dos irmãos), os templários amealharam, ao longo de seus quase duzentos anos de existência formal, um patrimônio formidável, que incluía uma esquadra naval.
Desde os primórdios, os pobres cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão
souberam empregar as crescentes e abundantes doações em terras européias, que
suprissem a Ordem no teatro de operações do Oriente. Produzia-se vinho, trigo, aveia,
suprimentos, armas, lã, roupas e outros gêneros – assim como se criavam cavalos,
fundamentais à ordem – em commanderies, granjas e fazendas em França, Inglaterra, Escócia, Itália1; e toda a produção sustentava a Ordem naquilo que era sua raison d’être: a Cruzada contra o infiel na Terra Santa.
A impressionante quantidade de víveres e toda sorte de bens e produtos que
os templários precisavam fazer trafegar no Mediterrâneo – mas também no Atlântico e no Adriático – sugere que em algum momento a Ordem optou por ter uma frota própria,
adaptando-se assim às peculiaridades do comércio portuário, da carpintaria naval e dos
estatutos das cidades marítimas, que faziam da navegação sua riqueza.
Controverte-se a respeito do tamanho desta esquadra. Uma vertente diz que ela foi pequena, louvando-se na escassez de registros sobre navios templários – argumento, aliás, desenganadamente frágil2; outros estudiosos defendem que os templários alugavam navios, enquanto outros ponderam que não deveria fazer parte das diretrizes estratégicas da Ordem ter vasos – fossem cargueiros ou de guerra –, porque suas prioridades eram efetivos e imobiliário no Oriente.
É legítimo, no entanto, acreditar que o Templo teve sua própria frota.
Primeiro, porque nos revelam os nomes de algumas de suas naus: o Falcão do Templo –
nau capitânea no Mediterrâneo –, o Templere, o Buteo do Templo, o Buscart do Templo4,
além de outros como o Grande Navio (do Templo)5, o Rosa do Templo, o Boa Aventura6, o
Santa Anna7, o Angelica8. Segundo, porque o estilo templário era, considerada sua
envergadura patrimonial e sua missão, não depender de nada nem de ninguém: tinham
sua regra, suas propriedades, seus castelos, suas igrejas, seus empregados, seus capelães,
seus créditos, seus expedientes bancários: porquê não teriam – quando menos a médio
prazo – seus próprios navios9?
Além disso, é razoável pensar que a Ordem, tendo que cruzar principalmente o Mediterrâneo para escoar sua produção – voltada para a subsistência dos irmãos no Ultramar –, e o fazendo em escala monumental, tenha em algum momento resolvido emancipar-se de terceiros e se valer de seus próprios navios. Muito cedo, os templários viram que sua navegação podia, além de diminuir os custos, lhes render lucro – aliás como tudo em que colocaram as mãos –, cobrando para transportar peregrinos que preferiam fazer a travessia marítima confortavelmente escoltados pelo pavilhão da Ordem.
O transporte de irmãos, empregados, bens e produtos era para o Templo uma tarefa imprescindível, malgrado rotineira; nos Estados Latinos do Oriente, os irmãos sofriam sucessivos revezes, o que obrigava a uma permanente reposição de quadros, equipamentos e víveres. Assim o foi ao longo de toda a existência da Ordem, até a queda de Acre (1291).
Ser independente do ponto de vista naval significava muito, estratégica e economicamente, para os templários. Uma vez que a ligação Ocidente-Oriente era vital, esse tráfego só poderia ser feito com proveito se a Ordem não ficasse à mercê de oscilações de aluguel, indisponibilidades temporárias ou restrições corporativas que poderiam perfeitamente estrangular a comunicação mediterrânea, fazendo agonizar as bases templárias na Palestina.
Embora se questione a utilização da esquadra templária em batalhas marítimas, sabe-se que na última década do Século XIII o grão–mestre Jacques de Molay ordenou pressão sistemática de seus cavaleiros baseados em Chipre contra os mamelucos mediante incursões navais ao longo da costa egípcia, além de manter uma guarnição em Ruad10, na costa síria.
Os templários tinham dois importantes portos: La Rochelle, atlântico, e Marselha, mediterrâneo. Na França mediterrânea, a presença da Ordem nas cidades portuárias era impressionante: desde Collioure, nos Pirineus Orientais (quase Espanha), passando por Montpellier, Aigues Mortes, seguindo rumo leste por Toulon, St. Tropez, St. Raphaël, Antibes, Nice, Villefranche-sur-Mer, Beaulieu, Mônaco, até Menton, na fronteira com a Itália.
Na Itália, os templários operavam no Adriático em Brindisi, Barletta, Trani, Fari; e em Messina, na Sicília, junto ao Tirreno. Na Espanha, tinham bases navais importantes, ou castelos, em Maiorca, Tenerife, Alicante e Peñíscola; em Portugal, usavam o Porto de Serra d'El Rei, um enclave portuário erigido por Gualdim Pais, legendário Mestre do Templo português, além de estarem sediados em Chipre.
Acre foi o mais importante porto templário. De fato, a única vez que a regra menciona navios da Ordem, o faz referindo-se ao comando da casa naquela cidade11; quatro anos após a queda de Jerusalém (1187), a cidade tornou-se o quartel-general das ordens militares nos Estados Latinos do Oriente. Além dela, os templários fundeavam suas naus, na Terra Santa, nos portos de ‘Atlit, Cesaréia, Tiro, Sidon, Gibelet, Tripoli, Tortosa e Antioquia.
Com a queda de Acre, em 18 de maio de 1291 – onde o Falcão do Templo12 teve destacada atuação, resgatando mulheres, crianças, civis, dignitários ocidentais e riquezas, conduzindo-os a ‘Atlit –, a Ordem concentrou suas atividades em Paris13. Em breve a frota perderia seu sentido prioritário de transporte para o Oriente; era o início do fim
Da ação-relâmpago que o rei Felipe o Belo desencadeou, em 13 de outubro de 1307, contra os templários na França, repontou uma dúvida que perdura há séculos sobre o tesouro do Templo. Especula-se, entre outras hipóteses, que dignitários da Ordem teriam embarcado com as riquezas templárias em 18 navios, ancorados em La Rochelle14: a sorte do tesouro do Templo estaria, assim, inexoravelmente ligada à de suas embarcações...
Mas qual o destino da frota templária? É possível que os navios tenham tido destinos diferentes; informações fragmentárias apontam portos escoceses, cipriotas, portugueses, ou aproveitamentos em ações piratas, por represália ou ofício. De todo modo, é seguro afirmar que Portugal auferiu benefícios imediatos deste desmantelamento: de La Rochelle, os templários que se fizeram ao mar para evitar o confisco das naus aportaram no Porto de Serra d'El Rei, na costa portuguesa.
Os templários eram tradicionais aliados da Coroa portuguesa contra o infiel e fruíam há quase dois séculos de um extenso patrimônio e uma série de privilégios em Portugal. Contrário à perseguição da Ordem, o rei dom Dinis reteve todos os direitos e bens templários até conseguir obter do papa, em 1309, a criação da Ordem de Cristo, legítima sucessora do Templo no reino português; todo o conhecimento naval dos templários em matéria de rotas marítimas, comércio, tecnologia e construção passou, assim, à nova Ordem, que assumiu uma ostensiva vocação naval.
O Infante dom Henrique, o Navegador, que se sagrou cavaleiro da Ordem em 1415, devotou expressivo tempo aos estudos e pesquisas na base naval de Lagos, no Algarve. A lendária Escola de Sagres – patrocinada pela riqueza da Ordem de Cristo – investiu em conhecimento naval de ponta e fez de Portugal o maior império marítimo da época; e as conquistas feitas por navegadores como Vasco da Gama, Bartolomeu Dias e Pedro Álvares Cabral, vinculados à Ordem, parecem confirmar que uma parte precio sa do Tesouro do Templo era nada menos que sua indefectível mestria nos mares.
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