A Renascença italiana do Século XV caracteriza-se pelo retorno dos valores da Antiguidade Clássica greco-romana, emergentes – após uma longa vida latente – como expressão da derrocada do feudalismo e da rigidez dogmática ditada pela Igreja. Quando novos valores eclodem, eles se corporificam em manifestações pictóricas: daí a intensa produção artística, de Botticelli a Rafael, retratando mitos protagonizados pelos deuses olímpicos.
Leonardo Da Vinci (1452-1519), estando à proa deste movimento, dedicou-se também a pintar cenas mitológicas. Além de seu João Batista com atributos de Baco, Da Vinci criou Leda e o Cisne (c.1510), pintura perdida – provavelmente destruída pela Inquisição – mas conhecida graças a rascunhos do próprio Leonardo e também por um desenho de Rafael; cópias anônimas igualmente referendam sua existência.
Sua prova documental, ademais, está nos inventários do castelo de Fontainebleau, que confirmam sua permanência ali até 1691; reforça-o o testemunho do renomado patrono das artes Cassiano del Pozzo (1588-1657), que narra haver admirado naquele castelo, em 1625, "uma Leda de pé, quase toda desnuda, com o cisne e dois ovos, de cujas cascas vêem-se sair quatro crianças: Castor e Pólux, Helena e Clitemnestra". Ao que tudo indica, Leonardo terá executado Leda e o Cisne entre 1506 e 1512, quando vivia sob o patronato de Charles d’Amboise, governador francês de Milão.
O tema parece ter efetivamente mobilizado Leonardo, que, em pelo menos três rascunhos, propôs duas soluções compositivas. Primeiro o tentou com Leda de joelhos, como figura não só em ensaios próprios ao tema como também, de modo incidental, em esboços preliminares presentes nos desenhos relativos ao mural da Batalha de Anghiari, no qual Leonardo trabalhava àquele tempo.
A reprodução que fez Giampetrino – seu discípulo milanês, em atividade de 1520 a 1540 – reflete a tendência de retratar Leda ajoelhada; entretanto, a cópia de Rafael (1483-1520) alinha-se à opção de Leonardo por uma Leda de pé, que quase certamente resultou na obra definitiva, tendo sido secundada, em posição congênere, por artistas desconhecidos, que incluíram em suas versões os elementos essenciais da obra original.
Leda e o Cisne é tida como a única obra de nu frontal de Leonardo; aliás, a hipótese de Leda estar de pé em toda sua nudez – sem a conveniente ocultação que a versão ajoelhada proporcionaria – valida em grande parte a crença de que a obra foi destruída pela intolerância da Igreja.
Artista do Renascimento, Leonardo foi buscar o tema de Leda e o Cisne no então em voga acervo mitológico greco-romano: Zeus encantou-se por Leda, rainha de Esparta, seduzindo-a metamorfoseado em cisne. Desta união advieram dois ovos, de onde repontaram Pólux e Helena (concebidos a partir da união com Zeus) e Castor e Clitemnestra (originados de Tíndaro, rei de Esparta). Cada cria terá, com efeito, destinos bem distintos.
Clitemnestra, casada em segundas núpcias com Agamenon, tem uma vida trágica que culmina em seu assassinato, como narrado na Orestíada de Ésquilo; Helena, rainha de Esparta, é raptada pelo príncipe Páris, fato que dá início à Guerra de Tróia; Castor e Pólux, inseparáveis a ponto de dividirem a imortalidade de um e a mortalidade do outro, tornam-se, por obra de Zeus, a constelação de Gêmeos. A figura do cisne é imemorialmente poderosa no Ocidente. A ave era sagrada para os gregos, que a associaram não somente a esta esplêndida metamorfose de Zeus (da qual a constelação do Cisne é seu espelho estelar) como, mais correntemente, com Febo – o Apolo dos romanos – , deus da luz, da beleza e da sabedoria. Na Idade Média, o cisne era o símbolo alquímico do elemento mercúrio, que provavelmente frequentava o ateliê de Andrea Verrocchio, mestre de Leonardo e de Botticelli; além disso, a vertente literária medieval conhecida como o Ciclo do Graal veiculou-o junto a Lohegrin, o legendário cavaleiro-cisne – uma engenhosa propaganda para a família Bouillon, de ascendência presumidamente merovíngia, que (re)tomou Jerusalém na Primeira Cruzada (1096-1099).
Contudo, a idéia prioritária que subjaz ao mito de Leda e Zeus-cisne é o do poder feminino de unir-se simultaneamente ao divino e ao humano. Leda, malgrado humana, gera filhos de índole diversa: metáfora para a diversidade (como se vê pelo destino de cada rebento seu) e, ao mesmo tempo, identificação da mulher com a própria Natureza.
Estas idéias evidenciam-se não apenas nas imitações como nos próprios croquis de Leonardo: restam presentes, quase que invariavelmente, plantas, água, ovos e o nu feminino – este último, embora desenganadamente sensual, de todo modo evocativo da fecundidade e da maternidade, também enaltecidas pelos ovos.
A presença de plantas nos rascunhos e derivações de Leda e o Cisne é o resultado pictórico dos precursores estudos de botânica de Leonardo; com efeito, a maioria das dissecções de animais e do sistema reprodutivo humano empreendidas por ele ainda não tinha ocorrido, obviando sua atenção da época para a vida vegetal.
Mas já então a água era irresistível para Da Vinci. No segundo esboço da Leda ajoelhada, um curso d’água flui por trás da cena; este elemento não terá faltado a nenhuma das imitações, sejam seus pintores conhecidos ou anônimos. Também de forma precursora, Leonardo começara a estudar o movimento da água e os turbilhões. Na sua obsessão por unir a ciência e a práxis, Da Vinci apresentou estudos básicos sobre escoamento de fluidos, projetou máquinas hidráulicas e uma roda d’água cujo princípio se utilizaria, depois, na construção da prensa hidráulica, em 1510.
Além disso, sua ligação com o rio Arno, que corta Florença, fez-se expressar seja em manifestações artísticas, seja em monumentais concepções de engenharia. Da Vinci concebeu, por mais de trinta anos, um ambicioso projeto hidráulico que consitia em racionalizar os usos do Arno, de forma a poder controlar a irrigação das terras agricultáveis, potencializando assim o comércio e aprimorando o transporte fluvial. O rio seria desviado, além disso, de forma a privar Pisa – cidade tradicionalmente adversária de Florença – do acesso ao mar. Porém, apesar de, com o apoio de Maquiavel, iniciarem-se em 1504 os trabalhos de transposição que incluiriam dois canais e um dique, o projeto redundou em fracasso, sendo motivo de escárnio.
Ao observar atentamente – ao que parece, com grande denodo na década de 1498-1508 (a mesma em que vieram à luz os croquis de Leda) – , e com distintas formas de experimentações, o movimento das águas, Da Vinci estabeleceu, por exemplo, que, à medida que os rios envelhecem, eles tornam-se mais sinuosos, graças ao depósito de sedimentos carreados em uma margem e à erosão na outra; tal fenômeno poderia levar até mesmo à obstrução do fluxo de água, a depender da quantidade de depósitos.
Mais tarde, e a partir do estudo da água em movimento, a atenção de Leonardo voltou-se para o fluxo sanguíneo em criaturas vivas. Na realidade, sua concepção antropocêntrica lhe conduzia permanentemente à convicção de que o homem era o microcosmos do Universo: já há tempos circulava entre os alquimistas a Tábua de Esmeralda, de Hermes Trimegisto, predicando que “o que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa”; e, após anos estudando o movimento dos rios (as veias do macrocosmos), ele estava preparado para utilizar seus conhecimentos sobre fluidos no ser humano.
Assim, seus estudos de anatomia sustentavam-se nas dissecções e em seus conhecimentos de hidrodinâmica: Leonardo vindicou que, com o passar dos anos rumo à velhice, as veias – como os rios – iam se tornando sinuosas, e que os depósitos que se formavam nestas curvas estreitavam-nas a ponto de obstruir o fluxo sanguíneo. Tal como no depósito dos rios, Da Vinci vinculou este progressivo estreitamento a aspectos nocivos da nutrição humana, não sem antes ressaltar que na Terra o efeito pode ser oposto – a água possibilita um alargamento de suas “veias”, ou seja, os rios.
Da Vinci sagrou-se o primeiro dos mestres porque, como nenhum outro, elegeu a luz, o conhecimento, a beleza e o espírito. Seu extraordinário horizonte de conhecimentos e idéias caminhou ao lado da composição de Leda, influenciou sua composição e de algum modo fez-se registrar ao lado do tema central. Nisso, Leonardo não difere de homem algum – é o universo de cada um que justifica, impulsiona, permeia e vivifica cada ato humano; nossos poderes, seja quais forem, têm sua gênese e força motriz no sutil mundo interior que escolhemos – conscientemente ou não – adotar.
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