A água sempre exerceu sobre Leonardo da Vinci (1452-1519) um permanente fascínio, que lhe custou muitos anos de estudo até dominar a dinâmica dos rios, a prevenção de inundações e a irrigação. Este encantamento, provam-nos os desenhos mais antigos do grande mestre, que remontam a 1473: são croquis do curso do Arno pelas colinas da Toscana.
Em 1502, vindo de ultimar sua “Madona do Fuso”, da Vinci, florentino, encontra-se, em Ímola, com seu conterrâneo Nicolau Maquiavel (1469-1527), por ocasião das tratativas com o sanguinário príncipe César Bórgia. Impondo suas pretensões territoriais na Toscana, este condotiere tencionava manter relações utilitárias com Florença; Maquiavel negociava em nome da cidade.
Leonardo estava, então, ao serviço de Bórgia, como seu engenheiro e arquiteto militar – “Architecto et Ingegnero Generale” –, com acesso irrestrito a seus castelos e plenos poderes para determinar melhorias. Mas Florença remanescia em seu coração; tendo–se conhecido, os dois gênios do Renascimento urdiram em favor da cidade amada um projeto extraordinário.
Cuidava-se do desvio do rio Arno, para privar Pisa – tradicional inimiga de Florença – de suas águas, assim como propiciar à querida cidade de ambos acesso direto ao mar. O Arno seguiria rumo ao Norte até Pistóia; assim, Florença poderia obter benefícios adicionais no controle de água, irrigação, energia e comércio. Leonardo concebeu com rapidez o projeto e imediatamente desenhou os mapas, para que fossem apresentados ao público. Dois canais seriam escavados e se conectariam numa grande esplanada, onde encontrariam e receberiam o Arno, que seria então canalizado através de uma montanha, mediante túneis. Segundo Da Vinci, as escavações ocasionariam a remoção de um milhão de toneladas de terra.
Tendo Leonardo sido chamado a Florença para terminar (também a rogo de Maquiavel) a “Batalha de Anghiari” – afresco que retratava a vitória, em 1440, dos florentinos sobre os milaneses1 –, para a Sala del Gran Consilio no Palazzo Vecchio, não supervisionou diretamente os trabalhos: a execução do magnífico projeto acabaria cabendo a um engenheiro hidráulico chamado Colombino.
É impossível dizer se o projeto original funcionaria: o engenheiro mudou sua concepção e cavou duas valas independentes que não se juntavam, tal como Leonardo havia pensado. Demasiadamente estreitos e profundos os canais, o Arno começou a preenchê-los mas retrocedeu, tornando a seu leito2. Fracassava, assim, a transposição do Arno; mas a amizade entre os dois célebres florentinos haveria de perdurar até a morte de DaVinci.
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