VINHOS, RIOS, DEUSES E CIVILIZAÇÕES

I – O EGITO

 

Alexandre Camanho de Assis

 

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Se o vinho vem ocupando, imemorialmente, um lugar de destaque entre os hábitos humanos, é talvez porque esteja associado à própria gênese da civilização; o cultivo da vitis vinifera é praticamente gêmeo daquela, tendo ambos prosperado, inicialmente, em regiões favorecidas por rios – mais precisamente, aqueles grandes rios cuja generosidade permitiu aos homens da Antiguidade evoluírem do nomadismo para a agricultura: Tigre, Eufrates, Jordão e Nilo, os rios do Crescente Fértil.

 

Antes de tudo, é preciso vincular o cultivo da vinha ao estabelecimento das sociedades agrárias, e portanto sedentárias; esforço prioritariamente mediterrâneo, já que as regiões mais ao norte abandonaram muito tardiamente o modo de vida errante. Estabelecer-se, domesticar a vinha até então silvestre, cultivá-la, aprimorá-la: tarefas de incontáveis gerações de almas espalhadas nas grandes civilizações antigas – sumérios, assírios, babilônios e egípcios.

 

Com a agricultura, o domínio das técnicas; mas, também, a consciência coletiva de que algo de sobrenatural, imune ao controle humano, era imprescindível ao plantio. A Natureza, com seus ciclos e seus fenômenos – as Estações, o Sol, as cheias, a Primavera, as secas, a chuva – foi daí divinizada, disso resultando os cultos agrários. Expressões vegetais que refletissem esta percepção foram, assim, naturalmente associadas ao divino.

 

Claro, o vinho tinha certas características divinas – consideradas as divindades então cultuadas. A videira perde suas folhas no inverno para depois ressurgir exuberante e dar frutos, e o faz perpetuamente. Arbusto especular dos ciclos da Natureza, a vinha “morre” e “ressuscita”; e proporciona o vinho que aquece no frio, traz a alegria indispensável para espantar os maus espíritos que amaldiçoam a colheita (os antigos afugentavam-nos cantando), e, devidamente ingerido, ascende o homem a uma condição sobre-humana – portanto divina – de ver o mundo, ou de encontrar um mundo “diferente”, sem inverno, uma eterna Primavera onde os infortúnios no plantio e na colheita não sombreavam os camponeses.

 

Quanto melhor o resultado, mais eloqüente sinal de que os homens satisfaziam a seus deuses. Assim a vinha, e seu derivado: as antigas civilizações disputavam no vinho a primazia da predileção divina, e foi assim que esta bebida associou-se aos deuses. No Crescente Fértil – região que engloba o Egito, a Síria, a Palestina, o Irã –, o regime dos grandes rios favoreceu a agricultura, levando a um florescente cultivo da vinha; e cada sociedade, cônscia do caráter divino do vinho, vinculou-o a seus deuses e heróis.

 

 

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Adorava-se, enfim, a Fertilidade; e a fertilidade, no Egito, chamava-se Nilo. Ao longo de suas margens, e destacadamente no seu Delta, os egípcios cultivavam a vinha; como o arbusto não era autóctone, especula-se que tenha vindo a partir do comércio com os fenícios, povo navegador que dominava o comércio marítimo do Mediterrâneo entre os Séculos X a V a.C. e de tal modo afeiçoado às águas que seu grande deus, Baal, manifestava-se pelas tempestades; os rios e as chuvas eram epifanias do deus Dagon; as águas subterrâneas eram presididas por Ayan, filho de Baal.

 

Com a ajuda dos deuses aquáticos fenícios, a vinha aportou no Norte da África, região com que a Fenícia fazia comércio. Já no Século V a.C., os egípcios faziam vinhos de prestígio, brancos e tintos, destinados à realeza e à casta sacerdotal: os faraós ofereciam-nos aos deuses – além de queimar vinhedos em sua homenagem – e a seus convivas, em festas reservadas ou públicas. Em torno do Século III a.C., os reis egípcios da Primeira Dinastia tinham extensas terras marginais do Nilo dedicadas ao cultivo da vinha.

 

Os egípcios foram enólogos pioneiros – os primeiros a registrar por escrito1, e com inúmeras pinturas, os métodos de vinificação, armazenamento, prensagem e transporte do vinho. Assim também na rotulagem: cada cântaro (ricamente ornamentado se tinha destinação real) continha informações sobre a uva2, a safra e a origem3. 

 

Cenas tumulares expõem a refinada técnica egípcia da plantação e cultivo da videira, que era plantada em declives naturais ou feitos pelo homem; a água era levada em jarros. A videira subia por colunas de madeira com extremidades bifurcadas e uma trave que as ligava, ou por treliças apoiadas em colunas; Faziam-se, ainda, caramanchões com os galhos da própria videira, dispostos em arco até o chão.

 

Maceravam-se as uvas pisoteando-as em grandes cubas, cujo mosto vertia, por um furo, em uma cuba menor; depois, uma segunda prensagem com as cascas era feita, estendendo-se as cascas maceradas jacentes na cuba maior num saco esticado, que era em seguida torcido para obter o restante do suco. Extraído todo o mosto, sua fermentação tinha lugar em vasos abertos. O vinho, então, era acondicionado em jarros cuja tampa era coberta com barro; pequenos furos eram feitos no topo da tampa, para permitir que o dióxido de carbono resultante de uma segunda fermentação exalasse. Ultimada a fermentação, selavam-se estes pequenos furos.

 

 

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Nos rituais, os vinhos tinham sempre lugar de destaque, visto que a divindade, ligada a forças da Natureza, certamente amava a vinha e com ela se identificava: cultos agrários sempre foram simultaneamente de fertilidade e de morte. O vinho promovia a integração entre o divino e o profano, a vida e o além. A divindade reflete os homens (e não o contrário); sendo assim, e amando os homens o vinho, porquê não iriam, também os deuses, prestigiá-lo, disputá-lo?

 

Várias divindades egípcias beneficiavam da associação ao vinho. Osíris, deus supremo, era chamado de “Senhor do Vinho na Enchente” – expressão que conecta sua ressurreição (após ter sido esquartejado por seu irmão Set) ao eterno ciclo da Natureza e às férteis enchentes do Nilo. Lendas remotas atribuíam aos olhos de Hórus – o deus egípcio do céu, filho do divino casal Ísis e Osíris – a fonte primordial do vinho. O maligno Set arrancou, num enfrentamento, o olho esquerdo de Hórus, que o substituiu por um amuleto com atributos da visão dos falcões; isso permitiu sua vitória sobre Set. O amuleto foi adotado pelos faraós, que lhe atribuíam poderes intuitivos. O Olho de Hórus – de onde derivava o vinho – associou-se assim à percepção feminina e ao triunfo da vida sobre a morte.

 

A divindade congenitamente identificada ao vinho, contudo, era Hathor, “Senhora da Embriaguez”1, deusa que disputava com a própria Ísis a devoção ao feminino no Egito: era a deidade das mulheres, do Amor, da beleza, fertilidade, alegria, dança, música e do vinho – do divino e inebriante vinho. Hathor era cultuada em todo o Egito, mas especialmente em Iunet. Seu insuperável prestígio a fez ser considerada, em mais de uma dinastia, mãe ou consorte de faraós: era a personficação das benéficas forças celestiais. A embriaguez decorrente do vinho desata os freios dos sentidos e da inibição, encorajando assim ao desejo, evidentemente relacionado a esta maravilhosa deusa.

 

Renenutet, “Senhora dos Campos Férteis”, deusa-cobra das colheitas, era outra divindade relacionada ao vinho. Na época das colheitas, cobras proliferavam nas plantações, para assediar os roedores que saqueavam os campos. Por isso a deusa reputou-se benéfica, vinculando-se, a partir disso, também, à fartura, à maternidade e à infância. Ao longo do Delta, e por onde mais fosse, sempre havia santuários dedicados a Renenutet nas plantações de vinhas. Nas festas anuais das colheitas, os melhores produtos eram deixados em oferenda àquela deidade.

 

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Hathor, a personificação das melhoras coisas; Renenutet, deusa-cobra, e Shesmu, em sua manifestação como homem com cabeça de leão.

Mas nem tudo ligado ao vinho, sintomaticamente, era luz: havia Shesmu, um remoto deus egípcio das profundezas, ao serviço de Rá e de Osíris. Cuidava-se de uma divindade de duplo caráter, adorada como benfeitora e temida como abatedora de homens. No Livro dos Mortos egípcio, o “Senhor do Sangue” apresenta-se como um “executor dos ímpios, dos maus, rebeldes e dos que blasfemavam contra o Deus-Sol, assim como os que pecavam contra a rígida lei moral de Osíris”1. Também nos textos da Pirâmide de Unas2 reponta este aspecto de Shesmu: ele é “o abate das almas”.

 

É nesse ponto que Shesmu, representado de forma antropomórfica, como leão com cabeça humana ou, ainda, falcão, identificou-se com o vinho: o vinho tinto do sangue dos executados, extraído das cabeças cortadas e lançadas à prensa. O étimo “Shesmu” inclui a expressão ‘prensa de vinho’, cujo hieroglifo era smw; o Egito fazia vinhos brancos, que, segundo a mitologia de Shesmu, eram misturados ao sangue dos executados e assim fazia-se tintar...

 

Mas, como tantas outras simbologias ligadas aos ciclos da Natureza, Shesmu também tinha um lado benéfico, que foi enfatizado no Novo Reino: era, também, o deus dos óleos preciosos, que serviam à cosmética e ao embalsamamento. O método de feitura dos óleos era rigorosamente igual ao do vinho, indo à prensa, todavia, azeitonas no lugar de uvas; donde, a inevitável associação com o deus do vinho. Ungüentos, fragrâncias, hidratantes e perfumes eram também sua epifania. Foi como divindade dos óleos e bálsamos que Shesmu ocupou um lugar nas cerimônias mortuárias: seus produtos impediam a inexorável corrupção dos cadáveres.

 

A divindade molda-se, misteriosamente, aos atributos humanos; no Egito, a dimensão da importância do vinho pode ser aquilatada pelo naipe de deuses que ostentavam, naquela bebida, seus apanágios.

 

 

 

1 Diz-se que a primeira palavra decifrada por Jean Champollion, ao enfrentar em 1822 os hieroglifos da famosa Pedra de Rosetta, teria sido yrp, precisamente “vinho”. É certo, porém, de todo modo, que a palavra figura em sua Grammaire Égyptienne, Chap. III, “D. Noms communs exprimés phonétiquement”, numa lista de hieroglifos no § 79.

2 Antigos escritos gregos e egípcios listaram alguns exemplos de uva egípcia: Mareótida (da qual era feito o vinho servido por César a Cleópatra), Tanis, Teniótida, Tebíada, Sebennytica, Manfesiana e Ecbolada, este útimo defeso a recém-casadas...

3 Consta que entre os quarenta cântaros que escoltavam Tutancamon em sua tumba havia um em que se lia: "Ano 9, vinho do sítio de Tutancamon, do rio ocidental".

4 Também “Senhora do Paraíso” ou, etimologicamente, “Casa de Hórus”: personificação do próprio céu, era a ela que o deus-falcão se dirigia quando alçava vôo.

5 O Livro dos Mortos, capítulo 15.

6 Tais textos – descobertos em1881 pelo egitpólogo francês Gaston Maspero – reputam-se os mais antigos escritos religiosos até hoje descobertos. Trata-se de uma suma da religião egípcia, datada de 4500 a. C., cujas fórmulas e ritos ajudariam o faraó rumo ao além-vida.

 

 

 

 

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